FĂșria negra ressuscita outra vez
- Krisagon Murilo
- 30 de jun. de 2024
- 4 min de leitura
Representatividade e educação são pilares na revitalização da autoestima em cabelos crespos
âEla quis ser chamada de morena/Que isso camufla o abismo entre si e a humanidade plenaâ.
As palavras de Emicida evidenciam a maneira como os negros sĂŁo constrangidos na sociedade, a ponto de nĂŁo querer serem vistos com tal. A psicĂłloga Liz Ribeiro conta que esses padrĂ”es influenciam de forma direta na mentalidade de jovens que, cada vez mais, necessitam de uma referĂȘncia, alguĂ©m para se espelhar. âĂ muito complicado vocĂȘ se achar bonito quando o mundo diz o contrĂĄrioâ.
Cabelos crespos e enrolados, nomeadamente, demoraram a serem vistos por marcas e agĂȘncias de modelos, influenciadas por uma cultura eurocentrista - visĂŁo ou abordagem que coloca a Europa e os europeus no centro de anĂĄlises, interpretaçÔes e narrativas histĂłricas, culturais e polĂticas. Isso afeta a aceitação e a autoestima de jovens que nĂŁo se adequam aos padrĂ”es estabelecidos pela sociedade. âPessoas com baixa autoestima costumam acreditar que nĂŁo sĂŁo tĂŁo boas quanto as outras, que suas vidas sĂŁo mais difĂceis e que nĂŁo estĂŁo Ă altura da felicidadeâ, complementa Liz. De acordo com a psicĂłloga, isso afeta diretamente no desenvolvimento de ansiedade e estresse e cria no jovem um complexo de inferioridade em relação ao prĂłximo.
Emanuela Fernandes conta que, ainda no colégio, sofreu preconceito pela textura do seu cabelo e esse preconceito continua na vida adulta.
"Quando criança eu nĂŁo gostava muito de andar com muita gente. Sempre deixava o cabelo num coque, pra ninguĂ©m ficar falando. Isso me afetou ao ponto de sempre deixar o cabelo preso, levou muito tempo pra eu usar ele solto novamenteâ, relata.
Assim como em todos os aspectos da histĂłria, os negros superam esse paradigma capilar. Pessoas de cabelo crespo tĂȘm visto a si mesmas com mais beleza do que olhavam hĂĄ tempos atrĂĄs e isso Ă© o empoderamento. Uma palavra que pode soar um tanto clichĂȘ, mas Ă© muito maior do que a autoaceitação. O empoderamento, nesse contexto, Ă© um processo de revolução cultural, social e estĂ©tica. âEu fiz trança no cabelo sĂł para ir no festival Tropicadelia. Ă algo que nos aproxima da cultura que nos criou. NĂŁo tem por que eu ter vergonha de quem eu souâ, conta Jean Santos, de 20 anos de idade, acadĂȘmico de CiĂȘncias da Computação.Â
A representatividade Ă© um fator essencial na promoção da autoestima e aceitação. Ver pessoas que se parecem com eles em posiçÔes de destaque e sucesso ajuda a combater a narrativa de que a beleza e o valor sĂŁo exclusivos a determinados padrĂ”es. âA minha principal referĂȘncia sempre foi a minha irmĂŁ. Ela sempre me incentivou a deixar meu cabelo solto e atĂ© hoje me ajuda a cuidar dele, seja com hidratação, finalização e atĂ© mesmo as minhas tranças quem faz Ă© elaâ, diz Emanuela.
A mĂdia e a indĂșstria da moda desempenham papĂ©is fundamentais nesse processo. Campanhas que promovem a diversidade, incluindo, diferentes tons de pele, tipos de cabelo e caracterĂsticas fĂsicas, sĂŁo essenciais para redefinir o conceito de beleza. Ă importante que essas campanhas nĂŁo apenas incluam pessoas pretas e pessoas de cabelo crespo, mas tambĂ©m celebrem suas caracterĂsticas Ășnicas sem tentar ajustĂĄ-las a padrĂ”es eurocĂȘntricos.   Â
O papel da educação
A educação tambĂ©m tem um papel basilar na desconstrução de preconceitos e na promoção da aceitação. Iniciativas educacionais que abordam a histĂłria e a cultura afro-brasileira de maneira abrangente e respeitosa sĂŁo essenciais. Isso ajuda jovens negros a valorizarem sua prĂłpria histĂłria e identidade, alĂ©m de educar outros grupos sobre a importĂąncia da diversidade e do respeito cultural.Â
âO papel dos profissionais de forma geral, Ă© de informar. O que nos relaciona com os outros ser humano Ă© sempre uma caixinha de surpresas, mas com cautela e paciĂȘncia sempre podemos obter bons frutos dentro de nossas relaçÔesâ, conclui a psicĂłloga. A educação, juntamente com a representatividade e o respeito cultural, pode ser a chave para uma mudança na forma como a sociedade vĂȘ e valoriza a diversidade.
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Apropriação ou não?
A aceitação cultural, entretanto, nĂŁo deve ser confundida com apropriação cultural, um conceito frequentemente discutido e debatido. âA apropriação cultural Ă© quando alguĂ©m pega algo de outra cultura, como roupas, mĂșsica, sĂmbolos ou tradiçÔes, sem realmente entender ou respeitar o seu significado. Ă como se estivessem apenas pegando uma "moda" ou "estilo" sem se importar com a histĂłria ou o valor que aquilo tem para o povo de onde veio. Isso pode ser bem problemĂĄtico porque pode reforçar estereĂłtipos e desrespeitar as pessoas que fazem parte dessa cultura. Ă importante lembrar de valorizar e respeitar as culturas dos outros, nĂŁo sĂł tirar o que convĂ©mâ, explica o historiador JosĂ© Silva.
Tranças nagĂŽ, dread locks, twists, box braids sĂŁo apenas algumas das diversas formas de arte que o cabelo crespo pode proporcionar ao seu dono. Quando se fala em cabelo crespo, nĂŁo se fala dele apenas na sua mais pura forma. Trata-se de uma textura na qual a criatividade Ă© o limite. NĂŁo sĂŁo penteados exclusivos de pessoas com cabelo mais enrolado ou de pele escura, mas a sua histĂłria e sua origem estĂŁo evidentemente relacionadas a essas pessoas.Â
A pergunta que muitos fazem Ă©: âQuem pode fazer tranças e penteados assim?â. O trancista Gustavo Zulu, cabeleireiro experiente em cuidados dos cabelos crespos, responde: âQualquer um! Seja vocĂȘ branco, preto, amarelo. Independente de quem vocĂȘ Ă©. A Ășnica coisa que se deve ter Ă© respeito pela cultura, entender a histĂłria, o porquĂȘ as tranças foram criadas. Se vocĂȘ entende e respeita, sinta-se Ă vontade. SĂł vai aumentar sua autoestima, garantoâ.